segunda-feira, junho 22, 2009
Sermão do Pr. Carlos César Novaes - DIRETRIZ EVANGÉLICA: Movimento cristão pela justiça
No sepultamento de Martinho Lutero, o luterano Filipe Melanchton citou cinco personagens da história do cristianismo que, em sua opinião, anunciaram o Evangelho com maior clareza: Isaías, Jesus Cristo, Paulo Apóstolo, Agostinho de Hipona e, como não podia deixar de ser, o reformador alemão. Dos profetas hebreus, Isaías é considerado, de fato, o pregador de espírito mais evangélico. Muito especialmente entre os capítulos 40-55, o chamado Dêutero-Isaías, que se dirige ao povo de Israel no exílio babilônico, nos anos 550-540 a.C., com uma mensagem de conforto, esperança e encorajamento. Em Isaías 40.9 lemos:
Você, que traz boas novas a Sião, suba num alto monte.
Você, que traz boas novas a Jerusalém,
erga a sua voz com fortes gritos, erga-a, não tenha medo;
diga às cidades de Judá: “Aqui está o seu Deus!”
O termo hebraico, traduzido aqui como boas-novas (que também aparece em 41.27 e 52.7), foi transposto para a língua grega, na Septuaginta, como evangelho.
A mensagem do Dêutero-Isaías (ou Segundo Isaías) para o povo cativo na Babilônia era uma notícia boa e alegre: “Aqui está o seu Deus”. O profeta queria proclamar às pessoas do seu tempo que, apesar da opressão e do sofrimento, o Senhor ainda conduzia a história e cuidava do seu rebanho (40.10-11).
Ou seja: acima do reino dos homens, repleto de injustiças e opressões, triunfa para sempre o reino de Deus. Por isso, o anunciador de boas novas proclama a paz, a salvação e a certeza de que, afinal, “o Senhor reina” (52.7).
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Não sei ao certo qual é o nome do filme ou do diretor — se for correta a hipótese científica de que a memória humana começa a falhar quando chegamos aos 27 de idade, a minha já está em pleno processo de deterioração há 20 anos — mas recordo bem a cena: alguns soldados do exército aliado abrem o grande mapa sobre uma mesa improvisada no campo de batalha, em meio à escuridão da noite, a fim de planejar as próximas investidas, e depois de conferirem várias possibilidades de locomoção e percurso, um deles pede ao que segurava a lanterna: “Jogue mais luz neste lado do mapa, mais luz neste lado”.
Penso que esta é a melhor definição para o movimento Diretriz Evangélica. Organizado na década de 40 por líderes evangélicos (David Malta Nascimento, Hélcio da Silva Lessa, Lauro Bretones, Himaim Lacerda, Luiz Curvacho, entre outros) que desejavam anunciar as propostas do reino de Deus de maneira integral, o movimento fez uso de revistas, colunas em jornais, congressos e programas de rádio para iluminar um lado do mapa que permanecia sombreado: a ênfase social da pregação cristã.
Eles não se contrapunham à mensagem evangelística das igrejas da época. Queriam, no entanto, que ela fosse anunciada em sua inteireza, e não só no formato de um mero apelo conversionista. Defendiam que a mensagem do Evangelho precisava ser levada ao ser humano como um todo (alma, mente e corpo) e à sociedade em todas as suas dimensões (política, econômica e cultural). Enfim, os participantes do movimento atuavam para que a luz fosse lançada também sobre o outro lado do mapa.
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Identificamos no movimento Diretriz Evangélica os principais elementos da pregação do Evangelho — do mesmo Evangelho que já existia antes dos evangelhos, na mensagem do Dêutero-Isaías.
Em primeiro lugar, um mensageiro que traga boas notícias. Não um profeta do desespero, a ameaçar o mundo com as pragas apocalípticas, ou um lamentador pessimista, choramingando as desgraças da vida, ao estilo da hiena Hardy Har-Har, do desenho de Hanna-Barbera.
O mensageiro das boas novas faz a denúncia e, ao lado dela, o anúncio. Mostra os descaminhos da injustiça e, em seguida, aponta o caminho da justiça. Revela as iniquidades e, também, o caminho da salvação. Fala acerca da condenação e, ao mesmo tempo, chama à conversão e ao arrependimento.
Em segundo lugar, as boas notícias são anunciadas com voz forte. Porque, normalmente, o mensageiro é uma voz que clama no deserto, como João Batista (Mateus 3.1-3).
O mensageiro das boas novas é um solitário. Não por falta de ouvidos: há ouvidos diversos. Mas por falta de ouvintes, pois os ouvidos são surdos.
É necessário que, além de subir a um alto monte, o mensageiro fale em voz alta, se quiser ser ouvido. E que se faça ouvir: como se fizeram ouvir três grandes profetas do século 20: Dietrich Bonhoeffer, na Alemanha nazista, Martin Luther King, na América racista, e Dom Hélder Câmara, no Brasil da ditadura.
Em terceiro lugar, a voz forte deve ser corajosa. Não tanto para enfrentar os inimigos de fora, mas especialmente para resistir aos inimigos de dentro.
Contra os defensores da mensagem integral do Evangelho, levantam-se os mesmos inimigos de sempre, e todos do lado de cá dos muros: a) os herdeiros do fundamentalismo, que só aceitam a pregação nos moldes do apelo conversionista e vivem a declarar que a igreja deve se preocupar apenas em salvar as almas perdidas; b) os propagadores da linha pentecostal e neopentecostal, que costumam alienar-se das preocupações sócio-políticas; c) os antiesquerdistas, que ainda entendem a ênfase social da pregação cristã como propaganda marxista/comunista; d) os politiqueiros, que possuem apenas projetos pessoais de poder e conseguem eleger-se graças a crentes desejosos de favoritismos imediatos.
O profeta é, no mais das vezes, incompreendido e, por causa disso, perseguido, como Micaías (1 Reis 22.1-28). Diferentemente do sacerdote, que ministrava os rituais do templo, o profeta seguia para o meio da praça e falava em nome de Deus ao povo, assumindo os riscos da sua postura.
Em quarto lugar, a coragem de anunciar o reino de Deus no âmbito do reino dos homens. Sim, coragem para dizer: “aqui está o seu Deus”. E para mostrar — de modo especial na realidade observada e vivida hoje no contexto evangélico — que mesmo a igreja pode se afastar dos propósitos do reino.
Allan Neely, numa conferência realizada no Seminário Batista do Sul, advertia que reino e igreja não estão totalmente separados, nem completamente identificados. Há momentos em que a igreja corresponde às expectativas do reino de Deus e períodos em que deles se afasta.
Certa vez, o pastor Hélcio Lessa, um dos líderes do movimento Diretriz Evangélica, sentou-se do meu lado, ao iniciar uma das nossas conversas, e detonou: "Estou procurando alguém que consiga me provar que quando Jesus Cristo pensou em igreja, havia pensado nisso tudo que anda por aí". Fiquei olhando para ele à espera do inevitável complemento jocoso, que não tardou: "E se alguém conseguir me provar que era isso mesmo que o Senhor Jesus queria, vou ter que começar a desconfiar do bom senso do Mestre".
E é bom lembrar que naquele tempo, lá por meados da década de 80, nem tínhamos essa explosão de igrejas neopentecostais, escândalos de pastores sendo acusados de fraudes fiscais, comunidades abertas em cubículos que se denominam sedes mundiais, programas de televisão anunciando curas e prodígios espetaculares, desfiles de pseudoartistas que se apresentam cantando essa música desprovida de qualquer beleza estética e qualificada de gospel, estranhas eclesiologias hierárquicas com seus bispos e apóstolos, e os apelos manipuladores que só pretendem extorquir os desavisados para sustentar projetos pessoais de poder e estrelismo.Numa aguda crítica ao cristianismo institucional, o compositor espanhol Javier Maroto fez uma canção chamada Siete Veces Crucificado.
Nela, Maroto se refere a um homem que, há dois mil anos, nasceu entre os pobres, pregava o amor e a justiça, andava com marginalizados e oprimidos, até ser acusado de traição e heresia. E Cristo foi assim crucificado pela primeira vez.
Depois, a igreja desse Cristo organizou o Santo Ofício e obrigou as pessoas a fazerem e pensarem tão só o que os bispos permitiam, condenando os desobedientes às fogueiras da Inquisição. E Cristo, assim, foi crucificado pela segunda vez.
Vieram, então, os espanhóis para a América, promovendo cruéis massacres das nações indígenas para roubar-lhes a terra e o ouro enquanto as catequizavam para impor a cultura européia. E Cristo, assim, foi crucificado pela terceira vez.Já no século XX, o papa João 23 convocou um concílio para modernizar a estrutura eclesiástica e torná-la mais próxima do povo. Mas os representantes da ala conservadora do clero sufocaram as iniciativas do Concílio Vaticano II e, assim, Cristo foi crucificado pela quarta vez.
Mais tarde, em Medellín, surgiu a Teologia da Libertação para demonstrar — com sua ênfase na justiça social — que não há pobres, há apenas empobrecidos. Novamente se levantaram as vozes conservadoras e perseguiram os defensores dos povos oprimidos. E Cristo foi crucificado pela quinta vez. Na cidade de Madri, continua Maroto, uma dinâmica paróquia acolhia os pobres e desamparados, mas acabou sendo fechada por ordem do Vaticano. Cristo, então, foi crucificado pela sexta vez. Hoje, enfim, o que faremos? — pergunta o compositor. Diante das injustiças e opressões modernas, crucificaremos pela sétima vez aquele que quis optar pelos perseguidos e abandonados?
Parece que os mensageiros do movimento Diretriz Evangélica cultivavam o mesmo objetivo: lembrar a igreja que, acima de tudo, seu grande objetivo no mundo é cumprir os propósitos do reino de Deus, e não construir o próprio reinado.
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Acompanhamos, nos últimos dias, as tumultuadas eleições no Irã. Multidões de jovens, mulheres e trabalhadores iranianos estão saindo às ruas para denunciar supostas fraudes no processo eleitoral e pedir mais liberdade de expressão para os cidadãos. O jornalista Robert Fisk, num artigo reproduzido pelo jornal O Globo, menciona um estudante de engenharia química da Universidade de Teerã que participava dos protestos recitando os seguintes versos de um poeta iraniano moderno: “devemos seguir sob a chuva, devemos lavar nossos olhos, devemos ver o mundo de um jeito diferente.”
Para tanto subia o anunciador de boas novas ao monte. E, com o mesmo objetivo, reuniram-se, décadas atrás, os organizadores de Diretriz Evangélica. Para ajudar-nos a ver o mundo de um jeito diferente.
Carlos César Novaes, professor de História do Cristianismo, é pastor da Igreja Batista Barão da Taquara, Rio de Janeiro, RJ. (Sermão pregado no culto de celebração a Deus pelos 60 anos do Movimento Diretriz Evangélica / 90 anos do Pr. David Malta Nascimento, na capela do Seminário Batista do Sul, Rio de Janeiro, RJ, em 16/06/09).
60 anos do movimento Diretriz Evangélica: Memória, homenagem e compromisso
Na mesa de debates que antecedeu o culto, o teólogo Ricardo Luiz de Freitas fez um breve histórico do Movimento mostrando a relação de Diretriz Evangélica com a teologia da missão integral da igreja, especificamente com o tema da responsabilidade social da igreja, que viria a ser tópico do Pacto de Lausanne, apenas a partir de 1974. Ele destacou as sementes do que viria a ser adotado por Lausanne, pelo menos 25 anos antes pelo pessoal da Diretriz. (O texto completo da apresentação encontra-se neste blog).
Dr. Alexandre Castro falou de uma "história deslembrada" dos evangélicos brasileiros, enfocando que, por interesses ideológicos, tentou-se apagar os grandes movimentos sociais na caminahada do protestantismo brasileiro, como a ação das Ligas Camponeses, com forte presença e participação de evangélicos. Que a história oficial procurou falar de um triunfalismo evangélico deslumbrado, ao tempo que faz uma história propositadamente "deslembrada". E finalizou falando da importância do Movimento que, numa perspectiva dialógica, estabeleceu contato com pelo menos três grupos, a saber: 1) com os evangélicos de uma maneira geral, fugindo do exclusivismo dominante no interior de muitas denominações, 2) com a sociedade brasileira e seus diversos atores sociais, discutindo os problemas de sua época, 3) Com as tendências políticas daquele contexto, como Capitalismo e Socialismo, tendo uma análise crítica consistente de ambos os sistemas.
Pr. David Malta Nascimento fez breve análise da realidade brasileira e mundial hoje e desafiou as gerações mais novas ao compromisso evangélico em suas dimensões sociais e políticas, na perspectiva da construção do Reino de Deus.
O culto teve a participação de grupos vocais e instrumentais, além da congregação que cantou hinos surgidos sob a inspiração dos congressos, publicações, colunas em jornais, através da participação de jovens intelectuais neste movimento, especialmente de 1949 a 1964. O grande homeageado foi David Malta Nascimento, reitor emérito do Seminário, pastor emérito da Igreja Batista de Barão da Taquara e que completou 90 anos recentemente. Ele recebeu uma bíblia das mãos do Pastor Iomael Santana e ouviu um relato histórico do movimento do Pastor Silvino Neto, em forma de poema. (O poema encontra-se neste blog).
A pregação foi proferida pelo Pastor Carlos César Novaes, que baseou-se em Isaías 40.9 e enfatizou a mensagem que destaca elementos nem sempre perceptíveis. Mencionou as dificuldades enfrentadas por pastores que debatiam questões sociais, especialmente na ditadura militar, e lembrou que ao pregar no sepultamento de Lutero, Filipe Melanchton destacou os melhores portadores da mensagem do evangelho: o profeta Isaías, Jesus Cristo, o apóstolo Paulo, Agostinho de Hipona e o reformador alemão. (A íntegra do sermão encontra-se neste blog).
Transmitido ao vivo pela internet, o evento foi promovido pelo núcleo carioca da Fraternidade Teológica Latino-americana (FTL-RJ), com apoio da Rede Evangélica Nacional de Ação Social (Renas), do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, da Sociedade Bíblica do Brasil (Rio), do Instituto de Estudos da Religião (ISER), da Igreja Batista Barão da Taquara, da Comunidade Batista do Rio, da Juerp e da Faterj.
terça-feira, junho 09, 2009
O MOVIMENTO DIRETRIZ EVANGÉLICA E A LUTA CRISTÃ PELA JUSTIÇA
Data e horário: 16 de junho de 2009, a partir de 19 horas
Programa
O Movimento Diretriz Evangélica foi organizado em 1949 e teve diversas atuações como publicação de jornal, revista, livro, coluna regular em O Jornal Batista , realização de congressos etc.
Eis alguns nomes de seus principais líderes:
Lauro Bretones
Alberto Mazzoni de Andrade
Hélcio da Silva Lessa
Mário Barreto França
Luiz Antonio Curvacho
David Malta Nascimento, (que completou em 22/05/09, exatamente 90 anos de idade).
Este encontro sonhado há cerca de 5 anos, tem como objetivo resgatar um movimento social evangélico e batista muito importante no contexto do protestantismo brasileiro e estimular as novas gerações nas lutas evangélicas pela justiça no contexto do Reino de Deus. Além de prestar justa homenagem aos líderes. Para alguns, homenagem in memorian.
Este encontro é promovido pelos núcleos do Rio de Janeiro da Fraternidade Teológica Latino-Americana e da Rede Evangélica Nacional de Ação Social, com apoio do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.
Pedimos suas orações, apoio, divulgação e presença no evento.
Clemir Fernandes Núcleo Rio FTL-B
quarta-feira, abril 08, 2009
Novo encontro da FTL-RJ
Espírito Santo – Do feminino ao masculino
O teo-lógico como fundamento do antropo-lógico:
Contribuições da pneumatologia a uma teologia de gênero
Este é o assunto a ser abordado no próximo encontro do Núcleo Rio de Janeiro da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil. Todos são convidados e a entrada é franca.
A palestra será feita por Alessandro Rodrigues Rocha, doutorando em Teologia (PUC-Rio), que estará lançando também, no Rio, seu novo livro ESPÍRITO SANTO: Aspectos de uma pneumatologia solidária à condição humana.
Comentários e reação à palestra serão feitos por Sílvia Nogueira, teóloga, que é também a primeira pastora batista do Brasil (CBB).
Além destas reflexões, que têm também a teologia da missão integral como pano de fundo, teremos oportunidade de tratar de outros assuntos de interesse de nosso núcleo da FTL, como uma agenda de atividades para este ano e também para o próximo.
Data: 14 de abril de 2009, terça-feira.
Horário: 17 horas
Local: Instituto de Estudos da Religião (ISER) – R. do Russel, 76 – 3º andar, Glória, Rio de Janeiro (Estação Glória do Metrô, saída Viva Rio).
Esperamos você, na força e ternura do Espírito Santo.
Clemir Fernandes
Núcleo Rio FTL-B
P.S. Favor encaminhar este convite aos seus contatos.
quarta-feira, dezembro 17, 2008
Declaração e Igreja
Para celebrar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Rede Evangélica Nacional de Ação Social (Renas-Rio) e o Instituto de Estudos da Religião (ISER) realizaram um Encontro de Reflexão e Compromisso, com o tema Direitos Humanos e Missão da Igreja. O evento aconteceu no centenário Instituto Central do Povo (ICP), na região central do Rio, e contou com a presença do secretário executivo do ISER, especialista-militante em direitos humanos, Pedro Strozemberg, e o pastor presbiteriano e antropólogo, André Melo.
A cerimônia que reuniu 50 pessoas, entre militantes e religiosos, colocou em discussão as similaridades encontradas entre os 30 artigos escritos na Declaração Universal dos Direitos Humanos e os Dez Mandamentos contidos na Bíblia. Segundo Clemir Fernandes, um dos organizadores e moderador do encontro, em ambos os documentos, os temas fundamentais que procuram reconhecer e defender a dignidade da vida, a justiça, liberdade plena e a diversidade são fortemente tratados e ratificados.
O primeiro, criado a partir do enfretamento humano de altos índices de mortandade ocorridos no século XX, e o segundo, presente e consolidado na sociedade ainda na antiguidade, também com forte ênfase na defesa da manutenção da vida humana.
Em seu discurso o pastor André Melo chamou a atenção para a necessidade de uma Declaração Universal, cujo objetivo seja reafirmar atitudes que deveriam ser espontâneas, como o respeito e o direito a vida dos homens. “Eu preferia que a Declaração não existisse. Se existe um papel, pontuando o que precisa ser feito ou não, significa que as coisas não vêm sendo feitas naturalmente”.
Para ele, reforçar os ensinamentos de Cristo e dos direitos, aprovados na lei, para que as pessoas mudem sua postura perante aos outros irmãos é triste e um retrocesso na humanidade.
No entanto, esse documento para o Brasil tem uma importância ainda maior, quando se avalia a condição histórica de desrespeito dos direitos humanos vivida aqui, explica Pedro Strozemberg. “Ele alimenta nossa esperança e utopia de viver numa sociedade capaz de garantir um lar digno, trabalho, segurança e saúde, afinal somos seres carentes desses direitos básicos”.
Pedro também observa que a lógica dos direitos humanos vem avançando com o tempo: primeiro com os direitos civis, seguidos dos jurídicos, os sociais e, agora, os direitos econômicos sociais culturais. Mas ainda de forma muito limitada. Segundo ele, falta ao Estado assumir a postura de regulador: “Não um regulador autoritário, e sim de princípio democrático, com valores que inclua a dignidade humana. Para isso, cabe ao Estado garantir os direitos humanos e à sociedade em respeitar as diferenças”.
Para destacar a importância do papel das igrejas nesse contexto, Pedro lamentou a posição de algumas instituições cristãs de não compartilharem os problemas da sociedade.
O mesmo desconforto foi salientado pelo Pastor André Melo: “É notório como muitas igrejas trabalharam contra a Declaração, com o argumento de ser algo modernista. Outras, como as evangélicas, acreditam ser dever do Estado e não se sentem na responsabilidade de discutir o assunto. Menos ainda de promover ações”.
“Eu até concordo que na Bíblia não encontraremos diretamente o termo “Direitos humanos”, mas iremos encontrar princípios que dão base aos direitos humanos, como solidariedade, respeito, igualdade, entre outros. Nós iremos perceber, inclusive, uma passagem ausente na Declaração, na qual os profetas dizem para denunciar toda e qualquer forma de opressão”. Por isso, Melo adverte que não basta organizarem mutirões de orações. É preciso ter uma prática cristã.
Ainda durante o encontro, jovens universitários, do Movimento FALE, declamaram trechos do documento aprovado pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, alternando com a memória de pessoas que foram impedidas do direito à vida, seja em casos isolados ou não. Entre eles as chacinas correntes acontecidas no Estado do Rio de Janeiro: Candelária, Vigário Geral, Duque de Caxias, Queimados e Nova Iguaçu, além das perseguições ocorridas na ditadura militar. Também mencionaram personalidades, religiosas ou não, que lutaram pelo respeito à vida como Herbert de Souza, Dom Hélder Câmara, Rev. Jaime Wright, Pr. Darci Dusilek, Dorothy Stang e outros.
O espaço da cerimônia foi escolhido especialmente por causa de sua localização na área do complexo do Morro da Providência, onde foram assassinados, após tortura, os três rapazes entregues por agentes do Estado a supostos traficantes de drogas, em junho de 2008.
Com uma saudação feita pelo sr. Mário Way, do ICP e das boas vindas em nome da Renas, feita pela coordenadora Sara Chagas, teve início o encontro, seguido da apresentação da missionária Ivani Mendes de Souza, da 1ª Igreja Batista de Ipanema, que deu um depoimento emocionante da sua vida no mundo do tráfico: o que a levou por esse caminho e como conseguiu sair dessa vida, através da igreja. Hoje, ela é referência na comunidade do Cantagalo, trabalha com mulheres da unidade prisional Muniz Sodré e na 53ªDP em Mesquita, RJ.
O encontro foi ainda entremeado com canções evangélicas, de cunho social, apresentadas pelo músico batista Ed Wilson. Ao final, a pastora metodista Kaká Omowale conduziu uma breve liturgia religiosa em memória de pessoas vitimadas pela violência e de personalidades que se dedicaram na busca pela dignidade humana. Essa articulação do conteúdo da Declaração Universal e os postulados bíblicos de defesa da vida visam ações de luta por justiça e valorização da existência humana, numa sociedade como a brasileira, marcada diariamente pela morte sem pena.
Confraternização, esperança e compromisso são palavras que traduzem bem o encerramento do encontro, que foi animado por um delicioso lanche, onde se destacaram os pães e bolos, feitos na própria padaria comunitária do Instituto Central do Povo.
quinta-feira, novembro 27, 2008
segunda-feira, maio 05, 2008
Teologia quer dialogar com a Cultura
Criar canais de diálogo com a cultura contemporânea a partir do
trinômio Fé-Ciência-Transdisciplinaridade. Este é o tema do I Simpósio
Internacional de Teologia (PUC-Rio) - desafios e horizontes para a
Teologia no diálogo com a cultura contemporânea, realizado na
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, de 1 a 3 de abril.
A escolha do tema se deve à crise de sentido que afeta as dimensões da
vida humana e surgiu do ambiente no qual o aparato de natureza
filosófica, científica e técnica tem dificuldade em encontrar resposta
na ordem jurídica e institucional, no alcance de consensos mínimos.
Entre os conferencistas os teólogos Andrés Torres Queiruga, da
Universidade de Santiago de Compostela, Espanha; Manfredo de Oliveira,
da Universidade Federal do Ceará; Luiz Carlos Susin, da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul; e a teóloga Elisabeth
Schüssler Fiorenza, da Universidade de Harvard, EUA. Houve a
participação de teólogos e teólogas católicos e protestantes
brasileiros, de diferentes escolas teológicas e de diversas regiões do
país, debatendo temas que relacionam teologia e física, ciências
humanas, ciências da religião, cultura, resiliência e pastoral, e
bíblia e ecologia.
Queiruga articulou o binômio Fé e Ciência, lembrando momentos
históricos de diálogo e até de tensões, e propondo nova aproximação
para o mundo contemporâneo. O diálogo da teologia com a ciência é
fundamental num mundo que preza pela autonomia, reconhecendo-a como
vontade de Deus, sem deixar de resguardar a área específica de
intervenção da ciência. E introduziu alguns questionamentos em relação
à oração de petição. Após a conferência, ele respondeu às perguntas
dos mais de 300 ouvintes, que lotavam o auditório do Centro de
Pastoral Anchieta. Essa participação superou as expectativas dos
organizadores.
Elisabeth Schüssler Fiorenza proferiu a primeira palestra do dia com o
tema As Escrituras e o Império, e movimentou a platéia, abordando as
questões sobre feminismo e gênero. Nas palavras da autora: "feminismo
é a noção radical de que as mulheres são pessoas". Ela também elencou
elementos da linguagem do Império Romano e as diferenças religiosas
contidas nas Escrituras cristãs, fazendo uma relação com a
globalização e as relações de poder.
A autora ainda criticou a forma com que a religião se apropria da
Bíblia, afirmando que a Sagrada Escritura é utilizada para legitimar a
exclusão de homossexuais e de feministas, garantir o divino, dominar e
ameaçar. Ela assegurou que a civilização humana tem interesse numa
leitura plural e tolerante, e apontou alguns caminhos possíveis,
sugerindo explorar o conceito de sabedoria na Bíblia e a necessidade
de se comprometer com uma teo-ética no mundo atual. No cosmopolitismo
da sabedoria, a Bíblia deve ser a luta do conteúdo sobre a
interpretação. A atuação ministerial feminina é vista como convite a
todos à sabedoria, rompimento com a lógica imperial, a dominação e a
visão segura.
Manfredo de Oliveira discorreu sobre Teologia e Ciências, destacando
que o novo quadro é composto da ciência moderna e das tecnologias que
daí provêm. Estas devem ser parceiras de diálogo para a Teologia que,
segundo Rahner, tem diante de si o mundo e os seres humanos, sem
perder de vista que as "Ciências têm o direito de falar de coisas
particulares, mas são incompetentes para falar do universal. Já a
filosofia e a teologia labutam com o universal". E lembrou que, para
John McDowell, "não há fronteira exterior para além da fronteira
conceptual".
Frente a esse quadro, "acreditar não é embotar as perguntas, por isso
a fonte d dinamismo da teologia se situa na gênese do raciocínio
humano, segundo Clodovis Boff. Também não se deve esquecer que a
teologia é saber do Absoluto, não saber absoluto", citou Agenor
Brighente. A teologia deve se dar conta de que não tem o monopólio das
falas sobre Deus porque a verdade é aberta aos discursos humanos. Isso
deve fazê-la perder a pretensão de ser mais que humana, sem perder de
vista que busca a presença do absoluto no mundo e do mundo no absoluto
e que o Reino de Deus é sentido de todos os sentidos, e é garantido a
todos, até aos derrotados da história.
Luiz Carlos Susin lembrou que a importância da teologia vem da
reflexão de que a fé cria comunidade e a comunidade cria a fé. A
teologia é vista como educadora da razão, para que a fé seja razoável
e a razão tenha limites. A palavra theoria, etmologicamente, é uma
visão do conjunto, como a de Deus. Por outro lado, só a Igreja é
insuficiente como lugar para a Teologia. O diálogo ajuda a evitar a
diluição do humano, lembrando Lévinas: "o subjetivismo é um abismo que
jamais devolve os cadáveres que engole". Se as ciências integram as
culturas mais vastas nas sociedades mais vastas, são as sociedades que
se tornam os espaços teológicos.
No projeto de Bento XVI, o diálogo da teologia com a sociedade
pluralista tem dificuldades no campo da cultura, não volta às fontes
cristãs, enquanto o ateísmo recrudesce. Para a sociedade muçulmana,
dialogar com os cristãos é conversar com o espaço secular moderno e
iluminista (Regensburg), e o valor moderno da liberdade religiosa dos
indivíduos (batismo do mulçumano), incompreensível para quem a fé é
inseparável da cultura e da sociedade.
* Teólogo e jornalista
http://lattes.cnpq.br/5999603915184645
